março 13, 2004

O sofrimento é salvífico. Sal, quê???!...

Nunca estive muito interessado em ver “A paixão de Cristo”, do Mel Gibson. Aquelas fotos de cenas do filme, com um Cristo martirizado, com coroa de espinhos e sangue a escorrer por tudo quanto é corpo provoca-me uma instintiva repulsa. Lembra-me as imagens que, ano após ano, por altura da Páscoa, a televisão nos mostra da crucificação com que alguns Filipinos se auto flagelam, reproduzindo a crucificação de J. Cristo que nos chegou através da história religiosa. Como acho que isso não passa de violência gratuita, de sofrimento doentio e de exibicionismo fanático, as imagens deste filme accionaram automaticamente em mim um sentimento de repugnância. Para horrores já bastam os reais e muito recentes...

À bocado, no elevador, cruzei-me acidentalmente com uma activa e fervorosa católica, conhecida minha. Impossível não a ouvir, no espaço apertado de um elevador. Deduzi que vinha do cinema, do filme em questão. Irradiante de felicidade, desfazia-se em elogios e recomendações à “obra-prima” de Gibson.

Livra!... Não vou mesmo ver o filme. É que lembrei-me de uma conversa, já lá vão alguns meses, à mesa do café, com a dita senhora. Não foi comigo, foi com a Ana, que a registou assim:

«... estava então a minha conhecida, secretária de direcção num organismo público, muito doente. Gripe, reumático, más disposições, dores, problemas nos olhos, um rol extenso, quase infindável, de maleitas. Estava muito doente e recolhida em casa ia para um mês.
Sem sequer sair?, perguntei.
Sim, sem sair, em casa sem nada fazer, quase sem falar com ninguém, quase sem ver televisão ou ler por causa dos olhos, um grande sofrimento.
Convencida que a inactividade e o isolamento forçados se deviam a prescrição médica, por certo necessários à cura, lamentei sinceramente a situação. Mas apercebi-me, no decorrer da conversa, que não era bem assim. Pelo contrário, continham uma boa dose de opção pessoal, em grande medida eram auto-impostos.
E, perante os meus pasmos sinceros, perante a minha incapacidade em compreender porque não reagia ela à doença, porque claudicava naquela passividade sofrida, a minha paciente interlocutora explicou-me que, mais importante que lutar contra a doença, já para não falar em revoltar-se, era aceitar a vontade de Deus com alegria. Se Deus lhe tinha enviado estas doenças era por ser necessário e benéfico, talvez mesmo para a pôr á prova – vontade de Deus não se discute, que os desígnios divinos são insondáveis – e a elas se submeter de boa-vontade e sem revoltas até que Deus, na sua infinita sabedoria e bondade, se dignasse dar-lhe a cura.
Claro que ia ao médico e fazia todos os tratamentos necessários, esclareceu ela, perante as minhas perguntas e incredulidades. Quanto ao resto, limitava-se a rezar e oferecer a Deus o seu próprio sofrimento. Olhe, consagrei-me à Nossa Senhora.
O sofrimento tem um grande valor perante Deus, esclareceu-me ainda. Os santos e santas da Igreja Católica não tinham conquistado a santidade à custa de sacrifícios? Jesus não se tinha deixado açoitar e ser pregado na cruz, sofrendo até à morte, para nos redimir dos pecados e salvar? O sofrimento é salvífico.
Sal, quê?, retorqui, agoniada com aquele Deus sanguinário e despótico, a enviar doenças, sofrimentos e outros castigos, a exigir sacrifícios e obediências mudas em troca de um bilhete de ingresso no paraíso celeste.
Abanei a cabeça, incrédula com tão primitivo conceito da divindade numa pessoa instruída, ali num café às portas de Lisboa, no século XXI. Ainda murmurei que, se se trocasse a palavra sofrimento por bondade, generosidade, altruísmo, caridade, então aquela coisa do salvífico e salvação já faria algum sentido para mim. Mas, sofrimento?!... E ainda arrisquei lembrar os estudos e pesquisas científicas relativos à importância e influência, na vida de cada um, dos conceitos, atitudes mentais, comportamentos... E acrescentei: Nesse sentido, dar assim tanto valor às doenças e sofrimentos, é quase atraí-los....
Mas a minha conhecida, ríspida, cortou-me a palavra. Não compreende... Não consegue compreender..., rematou ela, a levantar-se da mesa, cheia de dó pela minha incapacidade de entendimento.
Abanei os ombros. Que poderia eu acrescentar? Não compreendo, não!... A vida já é tão complicada e difícil mesmo sem ideias tão redutoras, tão paralisantes, tão castradoras...»

Publicado por vmar em março 13, 2004 10:55 PM
Comentários

Tenho alguma curiosidade em ver este filme, claro que devido à atarefada vida de mãe e não só, só o vou poder ver quando sair em DVD...mas parece-me pelos trailers (como diria Lauro Dérmio trailas) que é visualmente muito violento!

P.S. - Martini à descrição posso-te enviar um copito por CTT, mas dúvido que chegue em condições..eh...eh

Afixado por: querolasaber em março 13, 2004 11:26 PM

Confesso que tenho alguma curiosidade pelo filme... Talvez por ter sido tentada a sua censura...

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em março 14, 2004 01:31 AM

Não me desperta qualquer tipo de interesse, mas não deixo de observar com curiosidade o facto das
pessoas se impressionarem com os actos de violências exibidos todos os dias na vida real e ainda se sentem motivados a ir ao cinema ver filmes cuja fulcro é a violência.

Afixado por: congeminações em março 14, 2004 10:31 AM

Eu também vou ver, mais que não seja para poder expressar a minha opinião.Continuo a não querer deixar-me influenciar pelos fazedores dela, em todos os quadrantes, que são o pão nosso de cada dia nos tempos que correm.

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em março 14, 2004 11:04 AM

Já lá fui.
Podem ler uma humilde crítica no meu mais ainda humilde blog.
É mais técnica...

Afixado por: João Tilly em março 14, 2004 01:14 PM

Fui ver ontem e aquilo é só sangue, a diferença para os outros filmes sobre o mesmo assunto é o facto de atribuir a culpa aos judeus. Decididamente não é uma obra prima.

Afixado por: Diaba Ólica em março 14, 2004 05:33 PM

Após o que ...estou morta de curiosidade para ver o dito!
Quanto ao salvífico...essa senhora que leia a Bíbli e verá que Deus é um Deus de amor e não é através do sofrimento que se salva alguém.
AbraçoWB

Afixado por: whiteball em março 14, 2004 05:47 PM

Eu fui ver o filme, na passada quinta-feira (dia de estreia), à sessão da meia-noite. A sala estava com bastantes pessoas, como era de prever dado o mediatismo do filme.
Durante o mesmo consegui (e sem esforço algum)ter várias sensações, mas a que imperou foi a agonia. Fiquei por diversas vezes mal disposta, não sei se por ter dado cabo de uma embalagem de filipinos e outra de maltezers ou se pela violência das imagens.
De qualquer modo, não me arrependo de o ter visto: fotografia excelente e grande realismo de imagens devido à soberba caracterização.

Afixado por: Bichinho-de-Conta em março 15, 2004 02:35 PM